3 DICAS MATADORAS PARA VOCÊ FAZER QUADRINHOS

TENHA UMA VISÃO AMPLA DO CENÁRIO

Como quadrinhista, eu já senti na pele como fazer quadrinhos pode ser um grande desafio. As etapas de produção podem ser intimidadoras, principalmente para o autor independente, quando se vê diante de todo o trabalho que tem pela frente.

Isso acontece porque quadrinhos é uma arte híbrida, uma forma de contar histórias através de “imagens estáticas colocadas em sequência deliberada”, como diria o pesquisador Scott McCloud. Além do mais, geralmente se utilizam textos associados a essas imagens. Dessa forma, as histórias em quadrinhos se assemelham ao cinema, que se utiliza de “imagens dinâmicas”, e de áudio. Mesmo assim, são linguagens que tem uma identidade própria, uma especificidade única, que reside na integração dos vários elementos que as compõem. A prova disso é que escrever bem e desenhar bem não bastam para ser um bom quadrinhista.

Na produção de uma história em quadrinhos, muitos artistas cometem o erro de pular etapas e começar já no desenho das páginas. Sem o desenvolvimento adequado de design e conceito dos personagens, sem a definição da sequência dramática ou dos layouts, a probabilidade de cometer erros é muito grande. Partir direto “para o que interessa” não é o melhor caminho para todo mundo, pois muitas variáveis ficam em aberto e levam a desafios e imprevistos no ato de desenhar as páginas originais.

Por exemplo, quais os detalhes do personagem de costas? Como será retratado aquele cenário de batalha? Como organizar aquela sequência de diálogo? Muitas questões que já poderiam estar resolvidas. Esse travamento para a resolução de problemas atrapalha a fluidez do trabalho, e com frequência compromete a qualidade final. Isso pode ser evitado com uma preparação adequada.

O oposto também acontece. Outros se perdem nos meandros da preparação, desenvolvendo excessivamente os personagens, escrevendo sagas épicas e criando cidades e territórios, se demorando demais em coisas irrelevantes para HQ como será apresentada nas páginas finais. Isso pode levar a um ciclo de escrita e ilustração que geralmente atrasa as outras etapas da produção de uma história em quadrinhos.

Temos que ter em mente que o principal é ter as páginas prontas, e concentrar o foco nesse objetivo.

Para ajudar você nessa empreitada, eu preparei com muito cuidado 3 DICAS DE OURO para fazer quadrinhos! São elas:

1 - Aprenda fazendo: Aqui você vai entender a importância do aprendizado seletivo, e como desenvolver as suas habilidades de forma otimizada a partir das suas escolhas artísticas.

2 - Simplifique: Aqui você vai aprender como fazer o menos ser mais, através da clareza da comunicação. Vai aprender como aumentar progressivamente o nível dos seus desafios técnicos a cada arco de aprendizado.  

3 - Se comprometa: Nesta terceira dica, eu vou falar sobre o poder do compromisso e como fazer questionamentos-chave, que vão esclarecer sua visão sobre o papel dos quadrinhos na sua vida, levando a uma motivação consciente e transformadora.

 

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DICA DE QUADRINHOS 1: APRENDA FAZENDO!

Pode parecer uma coisa óbvia, mas muitos artistas não seguem essa simples dica.

De nada adianta ler muito sobre o assunto, assistir vídeos, ter uma grande cultura, e não colocar nada disso em prática. Existe um conhecimento que vem da experiência, e APENAS da experiência. Esse conhecimento prático é a chave para o desenvolvimento da qualidade das suas obras.

Muitos artistas se sentem despreparados, e imaginam que a melhor solução é passar por um longo período de estudos, antes de realizar uma obra finalizada. Porém, é muito mais produtivo aprender especialmente o que vai se utilizar em cada história. Há certas habilidades que serão sempre úteis, como por exemplo o desenho de personagens e expressões faciais, movimento, luz e sombra. Mas outras, como desenhar armas, cavalos, fazer texturas de água e chuva, são já um tanto específicas e não aparecem em todas as HQs.

Considerando a vastidão do conhecimento artístico, é muito mais eficiente se concentrar em aprender e/ou desenvolver o desenho, a escrita e os recursos narrativos específicos da HQ que você está produzindo. Eu chamo isso de aprendizado seletivo. Assim, você desenvolve principalmente o que precisa para fazer a sua HQ o melhor possível. Isso leva a uma especialização automática, e a cada nova HQ, novas habilidades vão sendo aprendidas e/ou desenvolvidas.

Essa forma de encarar a produção de uma HQ é muito mais produtiva do que passar anos estudando de tudo, deixando apenas esboços soltos como registro (que tem lá o seu valor, mas não se comparam com uma HQ finalizada). Com o aprendizado seletivo, além de aprender e desenvolver uma série de habilidades, você terá no fim do processo uma obra completa, e poderá utilizá-la para diversos fins. Se quiser, poderá publicá-la on-line e fazer campanhas de divulgação nas redes sociais.

No caso particular das histórias em quadrinhos independentes, a melhor forma de aprender é sendo responsável por todas as etapas, ou seja, ser o roteirista, desenhista, arte-finalista, letrista e diagramador, e também editor, designer, webdesigner e “marketeiro”.

Exercer todas essas funções é importante como experiência, mas é claro, você pode formar uma equipe e delegar algumas responsabilidades. Cada artista tem as suas forças e fraquezas, e é melhor você se concentrar no que você faz de melhor. De qualquer forma, um bom planejamento e a consciência das habilidades que precisam ser colocadas à prova, sempre vai ajudar.

É importante também reconhecer as suas capacidades e limitações. Não é recomendável fazer uma obra que está além das suas capacidades técnicas. Isso termina gerando frustração, que é um grande obstáculo para o artista. Por outro lado, você não precisa se subestimar. Para evoluir as suas habilidades, coloque-as à prova. Proponha para si mesmo um desafio ousado, mas não exagere a ponto de tornar inviável a sua execução. Ninguém vira mestre da noite para o dia. É necessário persistência, paciência, foco, força de vontade.

O melhor é começar por uma história curta, com começo, meio e fim. Fazer uma HQ com um grande número de páginas pode ser bom, mas é melhor ter uma história curta e completa, do que uma história longa e incompleta. 5 páginas, ou até mesmo 3, é ótimo para quem está começando. Assim, você vai sentir o grau de sua técnica, se acostumar com a divisão dos quadros na página e todas as outras habilidades necessárias para concluir uma HQ de forma bem resolvida.

Tão importante quanto o desenvolvimento dessas habilidades separadamente, é a integração dessas habilidades. Com a prática, você vai aprender a relacionar cada vez melhor o seu desenho com o seu texto, a narrativa com os gestos, as expressões faciais e o sombreamento; vai aprender a relacionar cada vez melhor o estilo e a técnica, a composição e o acabamento, os momentos e as cenas. Esse desenvolvimento conjunto, simultâneo, essa integração de habilidades, é o ponto central do aprendizado de histórias em quadrinhos. Isso porque a linguagem dos quadrinhos é precisamente uma unidade, e sua identidade se fundamenta na síntese, na fusão e metamorfose de certos elementos das artes visuais e da literatura. Não resulta numa simples soma de imagens e palavras, antes utiliza-se delas para dar origem a uma nova forma de comunicação original e distinta.

Eu já passei muito tempo treinando apenas desenho, e posso dizer que, apesar de ter me ajudado, não fez tanta diferença quanto os quadrinhos experimentais.

A melhor forma de desenvolver as habilidades que você vai precisar, e ao mesmo tempo a integração delas, é colocando-as em prática, fazendo quadrinhos! Não deixe para depois, aprenda fazendo!

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DICA DE QUADRINHOS 2: SIMPLIFIQUE!

É importante para o artista, sobretudo o iniciante, desenvolver as suas habilidades de forma progressiva. É aconselhável começar com histórias mais simples, e depois ir aperfeiçoando, fazendo experimentações. Não adianta você querer começar por uma HQ muito longa ou complexa.

É muito fácil perder o pique e terminar desistindo de uma história que não está dando certo. Isso já aconteceu várias vezes comigo, porque eu queria ir muito além das capacidades que tinha na época. Hoje eu sei que é mais importante seguir em frente com o que temos, do que esperar até o belo em dia em que nos tornamos mestres em nossa arte.

Também não é para você ficar no simples, ou no fácil, durante a vida toda. Comece com desafios que você pode superar, e vá aumentando o grau de de dificuldade, progressivamente.

Uma forma de aplicar esse princípio é limitando o número de páginas. Por exemplo, você começa com uma história de 3 páginas. A seguinte faz com 5, a outra com 10, e assim por diante.

O desenho dos cenários pode ser simplificado. Você não precisa fazer cenários detalhados em TODOS os quadros. Claro que é fundamental ambientar bem a sua história, mas o detalhamento excessivo dos cenários pode exigir muito tempo e paciência.

O estilo e a técnica causam um grande impacto na produção. Estilos mais realistas são mais difíceis de fazer (na maioria das vezes) do que um estilo mais caricatural, mangá ou cartunesco. Muitos mestres do desenho preferem utilizar traços mais estilizados, não porque não sabem fazer um desenho realista, mas porque não querem.

O iniciante, por outro lado, precisa admitir modestamente o alcance atual das suas habilidades, e não tentar exceder esse limite de uma maneira forçada ou artificial. O verdadeiro desenvolvimento é um despertar natural e harmonioso. Por exemplo, alguém que nunca fez academia pode querer levantar pesos muito pesados em seu primeiro dia. Ele não vai conseguir, ou vai ficar com dores extremas e até lesões. O que acontece com o desenho é mais ou menos a mesma coisa. Se você tentar fazer uma técnica que ainda não tem a capacidade mínima para dominar, o desenho fica visivelmente distorcido e desagradável. Por isso, respeite os seus limites e escolha uma técnica e um estilo que você pode resolver com o mínimo de desenvoltura.

Como já mencionei, é muito importante concluir o seu trabalho. Avance com HQs completas, mesmo que sejam simples ou de poucas páginas. Com o tempo, quando você conseguirá lidar com os desafios de produção com mais propriedade e tranquilidade. A partir daí, poderá buscar a excelência, que vem do alto domínio de suas habilidades.

Se acostume a errar, e o mais importante, aprender com os seus erros. Se acostume em fazer as coisas de forma organizada e controlada, mas também se dê liberdade para experimentações.

Perder o medo de errar é muito importante para o aprendizado. Errar é uma oportunidade para adquirir experiência, para entender o que precisa ser evitado. Grandes cientistas faziam centenas de tentativas até que um experimento desse certo.

Thomas Edison refez a experiência da lâmpada mais de 200 vezes. E se ele tivesse desistido na décima tentativa? Ou na centésima? A civilização demoraria muito mais para evoluir, se todos desistissem quando as coisas dão errado. Assim, talvez ainda estivéssemos na idade da pedra.

Por isso não se preocupe se o seu trabalho parece evoluir devagar, ou estagnado. Continue persistindo. Continue insistindo. Na hora certa, você dará um salto de desenvolvimento. O talento artístico é secundário, comparado ao poder da experiência. Mesmo que você tenha dificuldades em desenhar, escrever, ou em narrativa, um estudo direcionado e bem focado vai resolver o seu problema, cedo ou tarde.

Baby steps, brother. Não precisa de pressa. Comece com simplicidade e vá se crescendo, se fortalecendo. Como seria enfrentar o último chefe de um game logo na primeira fase? Seria difícil, não é? Por isso precisamos ir vencendo as etapas mais fáceis primeiro, e usar a nossa experiência para aprimorar as habilidades, e tudo o mais que precisamos, para enfrentar e vencer desafios cada vez maiores.

A simplicidade também melhora a eficiência da comunicação. Um desenho muito complicado, uma narrativa muito experimental, um texto cheio de floreios, tudo isso pode dificultar a leitura, deixar tudo muito difícil de digerir. Aprenda a enxugar as informações, e se concentrar na mensagem principal que você quer transmitir em cada quadrinho, em cada página.

Seja amigo do leitor! A não ser que você esteja escrevendo um livro de alquimia medieval ou uma visão profética, é importante ser claro e direto no que você quer dizer. Seja amigável, ajude o leitor a entender o que você quer comunicar nas suas páginas. Não espere que o leitor tenha paciência para decifrar a sua página! A leitura deve ser fluida, natural, agradável. Se o leitor der de cara com um texto muito truncado, uma narrativa confusa ou um desenho poluído demais, a probabilidade dele desistir da leitura aumenta exponencialmente.

Para prender a atenção do leitor, a simplicidade é muito eficiente, pois apresenta sem rodeios a mensagem principal de sua página, sequência ou quadrinho. Obviamente, você precisa se certificar de que a sua mensagem principal seja interessante!

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DICA DE QUADRINHOS 3: SE COMPROMETA!

Eu sei por experiência própria que quadrinhos não é fácil. Pode ser um grande desafio produzir uma HQ do começo ao fim, sozinho, de forma independente. A disciplina que você precisa para fazer o que você escolheu, vem em grande parte do comprometimento.

Para chegar no “x” da questão, você vai precisar ser honesto consigo mesmo. Que tal um pequeno exercício? Faça uma lista de pelo menos 7 das suas prioridades principais na vida. Quanto mais acima na lista, mais importantes. Por exemplo: família, saúde, dinheiro…”Fazer quadrinhos” deve deve ocupar uma posição nessa lista.

Na escala das suas prioridades, “fazer quadrinhos” se encaixa em que nível? É a sua prioridade mais importante? É uma coisa que pode ser facilmente adiada? Ou você tem pressa para fazer? Você encara essa atividade como uma profissão, ou como um hobby?

Agora pare e pense: “Quadrinhos é um fim em si, ou é o meio para eu alcançar outros objetivos”?

E uma pergunta que pode ser incômoda: “Estou fazendo tudo o que eu deveria fazer para alcançar os meus objetivos”?

E por último: “Porque quadrinhos é tão importante para mim”?

Quando você não encontra tempo, pode ser porque não estabeleceu “fazer quadrinhos” como uma prioridade real. A procrastinação é muito comum quando não temos convicção do que queremos e porque queremos.

O poder do compromisso é muito forte. Ele anula muitas das desculpas que geralmente damos a nós mesmos na hora de fazer o que devemos fazer, nesse caso, produzir quadrinhos.

O artista independente precisa de muita organização pessoal e força de vontade, pois é fácil colocar de lado as suas atividades artísticas, quando se trabalha em casa, em horário flexível. O problema é que cada vez que você adia, que você deixa de fazer, vai enfraquecendo o seu compromisso e a sua força de vontade. Então você fica desanimado, desestimulado e pode acabar desistindo.

Eu já passei por momentos muito difíceis na vida, quando os meus sogros estavam doentes e eu assumi a responsabilidade de cuidar deles. Eu podia ser interrompido a qualquer momento, por uma coisa que podia ser séria, ou apenas uma bobagem qualquer. Nas primeiras vezes, eu ficava cansado ou chateado, terminava fazendo outra coisa para me compensar, como jogar vídeo-game. Com o tempo, eu aprendi a voltar a meu estado de espírito produtivo com muita rapidez. O segredo era fortalecer a imagem do que eu queria, na minha mente. Meu objetivo era ser contrato com uma editora americana, e isso mantinha o meu foco, mesmo em um dia conturbado.

Por isso, eu posso lhe dizer com toda a tranquilidade: muito mais importante do que técnica e estilo, é a atitude de sentar na cadeira e fazer o que você precisa fazer.

Para firmar um verdadeiro compromisso consigo mesmo, o ideal é que você entenda o porquê das coisas. Porque você quer fazer quadrinhos? Aonde você quer chegar? Qual o seu objetivo? O que você realmente quer? Por incrível que pareça a maioria das pessoas não tem isso bem claro em sua mente. Defina bem o que você quer, e se comprometa, com força de vontade, a fazer acontecer.

Tendo refletido sobre todos esses assuntos, reveja a sua organização pessoal. Uma solução é estabelecer metas semanais, de forma simples e realista. Então, segmente esse cronograma semanal em metas diárias, bem definidas, de forma que você possa medir se está avançando ou não.

A princípio pode ser difícil seguir um cronograma, mas nessa hora o poder do compromisso faz diferença, ajudando você a realizar a sua história em quadrinhos.

Desejo sinceramente boa sorte na sua aventura artística! Se precisar de alguma dica pessoalmente, pode entrar em contato comigo, ficarei feliz em ajudar! Vamos juntos fortalecer o mercado de quadrinhos no Brasil!

Um grande abraço e até a próxima,

pedro-ponzo

Confira o vídeo!

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